Precisamos falar sobre Distortions

13/07/2017

Entrevistamos Thiago Girello, diretor criativo do game brasileiro destaque antes mesmo de seu lançamento


Mesmo que você não seja um gamer assíduo, ou daqueles que preferem entender do assunto ao invés de mergulhar nos jogos de forma mais direta, sabe que este nome não soa estranho, correto? Afinal, Distortion é um game brasileiro que acumulou 3000 votos no Steam Greenlight (ficando em 58º lugar dentre outras 3.400 inscrições) e atual campeão em duas modalidades do Big Festival, evento realizado em São Paulo há duas semanas. Agora, às vésperas de ser lançado mundialmente para plataforma PC (com a clara promessa de disponibilidade para Xbox One Playstation 4), o nome do jogo está, mais do que nunca, alinhado ao sucesso. Tudo porque, apesar de não parecer otimista aos que acolhem gráficos hollywoodianos e sonorização de nata cinematográfica, o material tem dado o que falar por conta de uma proposta, digamos, diferente.

Nossa redação foi atrás da mente pensante que controla toda a emoção e o enredo por trás das cortinas de um jogo 100% brasileiro, cuja intenção vai além de termina-lo. Segundo Thiago Girello, diretor de criação, Distortions é um jogo sobre autoconhecimento e superação. "A ideia é de que, no final das contas, não importa o que te aconteceu. O que importa é como você se sentiu na época, como superou o acontecimento e como se apegou às memórias" diz.

No material, a protagonista, chamada de "Menina", acorda sem memórias em um lugar desconhecido. Auxiliada por um misterioso homem mascarado e tendo em posse de si um diário repleto de anotações ela tenta se reconectar com as lembranças perdidas para poder compreender a si mesma e definir seu futuro, enquanto explora um mundo surreal habitado pelos Seres Mascarados. Nessa jornada de mistérios, drama e busca por respostas, sua única arma é um violino e seus acordes por meio dos quais é possível moldar o mundo ao redor. "É um game abstrato. Quisemos deixá-lo na camada do sentimento e trabalhamos essa experiência no jogo por meio das sensações que música causa na Menina. Enquanto explora florestas, montanhas, rios e interage com as diferentes criaturas do game, ela tem acesso a partituras em uma interface musical". 


Indie?

Segundo Girello, o game não é um material "Indie", mas sim um projeto que desde o começo foi pensado para ser grande. "O diferencial do Distortions é ser um game autoral de grande escala. Existe uma máxima entre desenvolvedores que é "pense pequeno", faça seu projeto mais simples possível. E isso é verdade, mas nós nunca nos identificamos muito com o mercado indie, e inclusive não jogamos muitos jogos indies. O mercado indie é conhecido por ter em sua maioria projetos mais simples. Desde o inicio Distortions foi um projeto ambicioso, com uma expressão 100% autoral, sem se preocupar com métricas de mercado. Nos só queríamos fazer o melhor jogo possível, mesmo que isso demorasse mais tempo que o planejado. Afinal produzir o Distortions sempre foi um momento muito gostoso pra todos do time, e nunca passamos por nenhuma dificuldade. Sempre curtimos muito!"

Perguntado sobre a inclinação de muitos jovens e adolescents brasileiros estarem em um momento febril de encarar o mercado gamer na maneira técnica de ser, ou seja, matriculando-se em escolas de Design Gamer, Girello foi objetivo. "Os cursos do Brasil são muito fracos, temos uma dificuldade enorme de achar mão de obra especializada. E colegal de outras produtoras também sofrem do mesmo mal. Os cursos e faculdades estão saturando um mercado que ainda não existe. O Brasil já dormiu no ponto várias vezes, e todo mundo cansou de ouvir a frase "agora vai", mas a verdade é que nunca foi, infelizmente". 

Hoje temos uma produção de jogos mobile, advergames e jogos de serviço até um pouco expressiva. Mas a produção de títulos autorais com sucesso comercial ainda é muito tímida. "Mesmo assim, pela primeira vez em muitos anos estou com uma visão otimista do mercado Brasileiro. O número de pessoas interessadas esta aumentando muito rápido, é só frequentar o spin (encontro de devs mensal que acontece na cidade de São Paulo) e você consegue ver como cresceu a quantidade de pessoas. Também é possível ver o crescimento do público do BIG, além do aumento da qualidade dos jogos. A aposta do governo Brasileiro em jogos indies com editais, é uma ótima empreitada. Algo que aconteceu nos anos 90 no cinema brasileiro, e hoje em dia o mercado de cinema já colhe esses frutos, traduzindo em boa ansiedade para os próximos cinco anos".

Sobre o enredo, Girello assume as referências. "A personagem é uma mistura de referencias, como a personagem do filme "Once", a garota de a Viagem de Chihiro e um pouco dos personagens do diretor Wes Anderson. Mas no fim das contas ela é uma expressão inconsciente minha e do Ricardo (roteirista)".Vale lembrar que a equipe do estúdio Amomg Giants atua no mercado de games a 10 anos, fazendo jogos de serviço para agencias de publicidade. E Distortions é a primeira grande empreitada no mercado autoral, com o objetivo de ter 100% do tempo dedicado a jogos autorais, e não jogos de serviço."Somos 4 amigos muito próximos, sempre levando o conceito de "estar entre os gigantes, com a ideia de ter custo de um pequeno estúdio indie mas lançar jogos que consigam pegar uma fatia do mercado AAA, mesmo que essa fatia seja pequena. Dai que vem o nome Among Giants".